Tuesday, April 03, 2007

a mi mamá

Contemplo o que nâo vejo.
É tarde, é quase escuro,
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu nâo seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Nâo sinto, nâo sou triste,
Mas triste é o que estou.

Fernando Pessoa

1 comment:

Mondo Gitane said...

Mmmmmm, Pessoa en un atardecer lisboeta, that's the real thing!!